Artigos científicos fundadores
Artigos transcritos e resumidos a partir dos fac-símiles conservados nos arquivos (fundo Proteac, NAS). Os resumos são apresentações redigidas, não reproduções do texto original; o fac-símile integral está acessível para cada artigo. Ordenação por data de publicação.
Esta página reúne os artigos científicos fundadores de Alfred Tomatis: as publicações pelas quais, desde as primeiras observações sobre a surdez profissional (1952) até às grandes sínteses dos anos 1970, ele enunciou e divulgou os princípios daquilo que se tornará a audio-psico-fonologia. Para cada um: metadados, resumo, contexto histórico e fac-símile.
O efeito Tomatis (1952)
Autor: apresentado por Louis Longchambon (trabalhos do Dr. Alfred Tomatis) Data: 1952 Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
É no exercício da medicina do trabalho que Tomatis descobre os laços que unem audição e fonação. Examinando operários atingidos por surdez profissional, ele observa que as frequências mal ouvidas são precisamente aquelas que faltam na sua voz: a voz só contém aquilo que o ouvido ouve. Estabelece em seguida que restituir a audição correta restabelece de imediato a emissão vocal, e depois que toda modificação imposta ao ouvido se repercute na voz, como o demonstra a experiência do sujeito inglês que adquire o sotaque americano. Uma audição forçada, alternada, modifica duradouramente audição e fonação. Tomatis aplica estas leis à criança com dificuldades escolares, à voz falada e cantada, e à gaguez, que ele relaciona com um atraso de transmissão entre os hemisférios ligado a um ouvido diretor inadaptado.
Contexto histórico — Este texto apresenta, já em 1952, a primeira formulação pública das «leis Tomatis» que fundam a audio-fonologia. Marca a passagem de observações clínicas em medicina do trabalho para uma teoria geral da comunicação, no alvor da carreira do jovem otorrinolaringologista.
O ouvido musical (1953)
Autor: Dr. Alfred Tomatis Data: fevereiro de 1953 Publicação: Journal Français d’Oto-Rhino-Laryngologie, n.º 2 Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Partindo dos exames audiométricos que pratica em centenas de operários e engenheiros das indústrias aeronáuticas, Tomatis faz uma constatação inesperada: apesar de um estrondo que pode atingir 140 decibéis, muitos ouvidos permanecem intactos. Entre estes sujeitos «invulneráveis ao ruído», uma cinquentena apresenta uma curva audiométrica singular — não a habitual depressão da surdez profissional, mas uma sensibilidade acrescida, ascendente, entre 500 e 2000 hertz, no ouvido direito. Ora, ele reencontra exatamente este perfil em cantores que o vêm consultar por problemas de afinação. Ao elevar a sua audição nesta zona, devolve-lhes uma voz justa. Sobretudo, descobre que todos os sujeitos dotados desta curva são músicos, ou possuem «o ouvido musical»: ouvem e reproduzem uma frase com justeza. O artigo funda assim o laço entre a qualidade da escuta e a da voz.
Contexto histórico — Publicado no mesmo ano em que Tomatis apresenta os seus primeiros trabalhos, este artigo prolonga a sua comunicação de 1952 sobre as surdezes profissionais. Coloca a pedra fundadora de toda a sua obra: é o ouvido que governa a voz, intuição que ele resumirá pela fórmula «canta-se com o ouvido». A observação, no final do artigo, de que escutar apenas com o ouvido esquerdo torna a voz «plana e sem musicalidade» anuncia já o papel diretor do ouvido direito.
A surdez na D.E.F.A. (1954)
Autor: Dr. Alfred Tomatis Data: maio de 1954 Publicação: Le Médecin d’usine (Congresso da Direction des Études et Fabrications d’Armement, maio de 1954) Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Relatório apresentado ao congresso anual dos médicos do armamento, onde Tomatis expõe as suas observações sobre a surdez profissional. Para além dos caldeireiros, cuja perda auditiva começa classicamente nos 4000 períodos, duas populações retêm a sua atenção: os operários dos túneis de vento e os atiradores. Neles, as variações de pressão destroem em primeiro lugar o aparelho de transmissão do ouvido médio, privando o nervo de toda proteção. Estes sujeitos tornam-se paradoxalmente hiperauditivos, perdendo ao mesmo tempo a sua seletividade: ouvem mais, mas já não compreendem, incapazes de distinguir dois sons de alturas diferentes. A queda do nervo sobrevém então muito depressa, por vezes num ano. Tomatis nota também, em alguns, uma lesão mais acentuada do ouvido direito acompanhada de perturbações da voz, e sublinha a gravidade humana e social destas surdezes precoces.
Contexto histórico — Apresentado dois anos após a formulação das «leis Tomatis», este relatório ancora a sua investigação na medicina do trabalho dos anos 1950, onde o ruído industrial e militar fornece os seus primeiros terrenos de estudo. A observação conjunta da lesão auditiva e da alteração vocal prolonga aí concretamente a sua hipótese audio-fonatória.
A correção da voz cantada
Autor: Dr. Alfred Tomatis Publicação: Société Française d’Étude et de Contrôle du Matériel Audio-Sonore (S.F.E.C.M.A.S.) — Laboratório de Investigações Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Tomatis situa primeiro o foniatra como um otorrinolaringologista de pleno direito, e não como um professor de canto médico. Abordando a voz cantada destruída, ele distingue no jovem cantor duas origens: a rutura do equilíbrio muscular nascida de um ensino mal dirigido, e uma síndrome de incompatibilidade entre mestre e aluno, fundada na necessidade de uma audição de igual qualidade. Quanto às grandes vozes perdidas, demonstra, pela análise oscilográfica e pelo estudo do ouvido diretor, que um cantor só reproduz aquilo que ouve: a curva vocal epousa o audiograma. A intensidade considerável das grandes vozes provoca uma surdez de tipo profissional, que faz bascular a emissão para os graves e os sons de garganta. Em apoio, analisa a evolução espectral da voz de Caruso e depois reeduca um cantor filtrando os harmónicos traumatizantes para restaurar a justeza e o timbre.
Contexto histórico — Oriundo dos seus trabalhos no laboratório da S.F.E.C.M.A.S. em meados dos anos 1950, esta exposição aplica as leis audio-fonatórias ao domínio artístico do canto lírico. Vê-se aí nascer a técnica de reeducação por filtragem que prefigurará o «ouvido eletrónico».
Cadernos de acústica — Relações entre a audição e a fonação (1956)
Autor: Dr. Alfred Tomatis Data: julho-agosto de 1956 Publicação: Annales des Télécommunications, tomo 11, n.º 7-8 (Cahiers d’acoustique n.º 74, Groupement des Acousticiens de Langue Française — G.A.L.F.) Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Tomatis apresenta a sua audiometria objetiva e o circuito solidário que une audição e fonação, onde toda anomalia se revela por uma perturbação do ritmo ou do timbre. Descreve o ouvido diretor, cuja supressão retarda e altera a emissão, e a curva-tipo do ouvido musical, ascendente de 500 a 2000 c/s. A gaguez explicar-se-ia por uma «transferência transcerebral»: privado do seu ouvido diretor, o sujeito toma um trajeto mais longo, cujo atraso, próximo de um quinze avos de segundo — duração média da sílaba francesa —, engendra a reduplicação silábica. Analisa em seguida a surdez profissional dos cantores, que destroem a sua audição pela própria intensidade, provocando escotomas auditivos e depois vocais. Por fim, aborda a seletividade auditiva, própria de cada registo e variável segundo os povos, antes de expor o seu dispositivo de audiometria objetiva por filtros e ruído branco.
Contexto histórico — Publicado numa revista de acústicos em 1956, este artigo testemunha a inscrição das investigações de Tomatis na comunidade científica da acústica do pós-guerra. Sistematiza as suas leis sob a forma de um «circuito audição-fonação» e lança as bases teóricas do método que levará o seu nome.
Audiometria objetiva (1957)
Autor: Dr. Alfred Tomatis Data: maio-junho de 1957 Publicação: Journal Français d’Oto-Rhino-Laryngologie (J.F.O.R.L., t. VI, n.º 3) Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Tomatis expõe aí as relações que tornam a audição e a fonação solidárias ao ponto de formarem um verdadeiro circuito. Descreve a existência de um «ouvido diretor», homólogo do olho diretor, e mostra por montagens eletrónicas que a supressão deste ouvido perturba de imediato o ritmo e o timbre da voz. Relaciona com este mecanismo a patogenia da gaguez, que explica por um atraso de «transferência transcerebral» próximo do quinze avos de segundo, duração média da sílaba francesa. Aborda em seguida a surdez profissional dos cantores, vítimas da sua própria intensidade sonora, a noção de escotomas auditivos e vocais, e a seletividade auditiva variável segundo as vozes e as línguas. Conclui sobre o princípio de uma audiometria objetiva, que mede a audição à revelia do sujeito por contra-reação fonação-audição.
Contexto histórico — Este artigo de 1957 constitui uma das exposições fundadoras em que Tomatis formula a lei que levará o seu nome: a voz só contém os harmónicos que o ouvido ouve. Nele se encontram já o ouvido diretor, o circuito audição-fonação e a ideia de ouvido eletrónico, que estruturarão toda a sua obra ulterior.
Os malefícios do ruído (1957)
Autor: Dr. Alfred Tomatis Data: novembro de 1957 Publicação: Le Médecin d’usine Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Destinado aos médicos do trabalho, este artigo trata dos perigos do ruído em meio industrial. Tomatis descreve a surdez profissional, caracterizada por um estreitamento do campo auditivo, a perda dos agudos e o traço clínico «ouvir sem compreender». Detalha-lhe os quatro estádios, desde a instalação de um défice permanente em torno dos 4000 hertz até à surdez manifesta. Defende uma vigilância audiométrica precoce dos sujeitos jovens e apresenta dois dispositivos da sua invenção: o audiómetro de fábrica, que permite uma deteção rápida fundada na mudança de timbre de um ruído, e a audiometria objetiva, destinada a desmascarar os simuladores graças às contra-reações fonação-audição. Retoma aí o ouvido diretor, a transferência transcerebral e a gaguez, e depois o auto-traumatismo sonoro dos cantores.
Contexto histórico — Oriundo da sua atividade de vigilância médica nos Arsenais, sob a égide do Institut national d’hygiène et de sécurité, este texto mostra Tomatis a aplicar as suas descobertas audio-fonatórias aos desafios concretos da medicina do trabalho. Vê-se nele a passagem do laboratório à instrumentação clínica de terreno.
As reações somáticas e psíquicas ao ruído industrial (1959)
Autor: Dr. Alfred Tomatis Data: 1959 Publicação: Archives des Maladies Professionnelles (t. 20, n.º 5, p. 611-624) Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Tomatis sustenta aí que o ruído industrial, pela hipertrofia dos seus parâmetros, ultrapassa as capacidades do ouvido e perturba o organismo inteiro. Distingue as reações do ouvido, as reações somáticas e psíquicas secundárias à lesão auditiva, e aquelas que dela parecem independentes. Descreve um «sinal de alarme» audiométrico, o adelgaçamento do espaço Ar-Osso, testemunho do esgotamento do aparelho ósteo-muscular do ouvido médio. Daí decorre a sua ideia mestra: uma verdadeira educação do ouvido ao ruído, ginástica que fortalece o músculo do estribo e distende o tímpano, realizada por meio do «ouvido eletrónico». Por fim, associa ao défice dos agudos todo um cortejo somático e psíquico — fadiga, emagrecimento, alteração da voz, retraimento, perda do ímpeto vital.
Contexto histórico — Publicado em 1959, este texto marca uma viragem para a dimensão psíquica e existencial da escuta. A evidenciação das repercussões somáticas e afetivas da privação dos agudos, e o uso terapêutico do ouvido eletrónico, anunciam o deslizamento de Tomatis da otorrinolaringologia para a audio-psico-fonologia.
A ressonância nas escalas musicais (1960)
Autor: Dr. Alfred Tomatis Data: 1960 Publicação: Le point de vue des physiologistes Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Tomatis interroga a própria noção de ressonância e distingue três estádios indissociáveis do fenómeno: físico, fisiológico e psicológico. No plano físico, a ressonância explora as vibrações da matéria em condições de impedância mínima. Mas a música só tem ressonância verdadeira se for ouvida: a sua qualidade depende então da perceção, logo da ressonância fisiológica própria de cada ouvinte. O ouvido não é um simples analisador: por um jogo reflexo de regulação, o seu andar médio pode reforçar ou extinguir tal feixe harmónico, fazendo ouvir claros os sons graves ou escuros os sons agudos. Experimentalmente, o autor afirma poder modificar esta maneira de ouvir, até suprimir a audição musical ou conferir os reflexos de um cantor escolhido. A ressonância musical, partida de um facto físico conhecido, revela-se assim tributária de uma interpretação essencialmente individual.
Contexto histórico — Este artigo situa a ressonância musical no cruzamento da física e da psicofisiologia, prolongando as investigações de Tomatis sobre o ouvido musical. Anuncia os desenvolvimentos ulteriores sobre o condicionamento auditivo e o ouvido eletrónico.
O efeito Tomatis e o ouvido eletrónico para a aquisição das línguas vivas (1960)
Autor: Dr. Alfred Tomatis Data: 11 de março de 1960 Publicação: Conferência proferida no Palácio da UNESCO Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Tomatis apresenta a linguagem como o derradeiro estádio de uma adaptação que condicionou, para fins acústicos, um conjunto neuro-muscular primeiro votado à deglutição e à respiração. Descreve aí o ciclo audio-vocal: falar é ouvir-se e controlar-se, sendo o primeiro informado o próprio emissor, segundo as leis da cibernética. De dez anos de trabalhos em laboratório ressalta o «efeito audio-vocal»: toda modificação da audição acarreta ipso facto uma modificação da voz (timbre, postura laríngea, respiração, mímica). O ouvido, pelo ajuste da cadeia ossicular, abre bandas passantes segundo um tempo de acomodação próprio de cada língua. O ouvido eletrónico põe esta descoberta em prática: por um jogo de filtros, impõe a qualquer sujeito, mesmo refratário, uma audição predeterminada, recriando as condições de integração de uma língua estrangeira como as da língua materna.
Contexto histórico — Esta conferência de 1960 marca a apresentação pública, perante a UNESCO, da aplicação do efeito Tomatis à aprendizagem das línguas. Formaliza o ciclo audio-vocal e o uso do ouvido eletrónico, fundadores da pedagogia tomatiana das línguas vivas.
A Voz (1962)
Autor: Dr. Alfred Tomatis Data: 1962 Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Tomatis aborda a voz sob o ângulo da acomodação psicofisiológica e do mecanismo de regulação da emissão. A palavra supõe um autocontrolo permanente, exercido por um «servomecanismo» de que o ouvido é o primeiro andar. Desenvolve a noção de ouvido diretor — à direita no destro, à esquerda no canhoto — único portador de musicalidade: a sua supressão altera imediatamente a voz do cantor como a do falante. O autor liga a gaguez a um atraso fisiológico do retorno da auto-informação («delayed feed-back»), provocado em torno de 0,15 segundo, valor médio da sílaba francesa. Coloca a equação aproximada que liga ganho e tempo, ilustrada pelo caso do surdo-mudo. Por fim, o audiograma revela os registos (tenor, barítono, baixo), as bandas de seletividade próprias das nacionalidades e os estragos do ruído (escotoma auditivo cerca dos 4000 Hz), confirmando que «um sujeito só emite os sons que é capaz de ouvir».
Contexto histórico — Síntese maior do início dos anos 1960, este artigo reúne as noções-chave da obra de Tomatis: ouvido diretor, ciclo audio-vocal, etiologia auditiva da gaguez e lateralidade. Consolida a «lei» segundo a qual a voz só reproduz aquilo que o ouvido perceciona, fundamento de todo o método ulterior.
Resultados do exame da audição em 180 crianças (1962)
Autor: Bruno Castets, R. Lefort, A. Tomatis, M. Reyns Data: junho de 1962 Publicação: Annales médico-psychologiques, n.º 1 (junho de 1962) Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Este trabalho coletivo dá conta do exame audiométrico sistemático de 180 crianças de 7 a 13 anos, internadas no Centro de psicoterapia infantil de Armentières e apresentando perturbações mentais. Os autores renunciam a toda classificação nosológica clássica, julgada mal ajustada às realidades clínicas da infância. Em 103 exames interpretáveis, a imensa maioria revela perturbações auditivas importantes — hipoacusias e surdezes de tipos variados — bem como um défice frequente de seletividade auditiva, sem que nenhum antecedente neurológico os explique. Os autores interrogam então o lugar destas perturbações na génese das desordens mentais: a criança que ouve mal compreende mal, obedece mal, e vê-se injustamente tida por preguiçosa ou atrasada. Sugerem uma etiologia conjunta, orgânica e afetiva, sendo o som a via primeira de acesso à linguagem e à estrutura socio-cultural.
Contexto histórico — Publicado numa revista psiquiátrica de referência, este artigo testemunha o enraizamento clínico e institucional das teses de Tomatis no início dos anos 1960. Estende a hipótese audio-psicológica ao campo das perturbações mentais da criança, ligando escuta, linguagem e desenvolvimento intelectual.
O otorrinolaringologista perante os problemas da linguagem (1964)
Autor: Dr. Alfred Tomatis Data: abril de 1964 Publicação: L’Hôpital (número especial) Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Tomatis defende aí que o otorrinolaringologista, depositário dos órgãos da palavra, assuma o estudo da audição nas suas relações com a linguagem. Formado primeiro na cirurgia e na lesão, o especialista negligencia, segundo ele, a própria função fonatória, ao passo que o ouvido é o seu regulador essencial. O autor descreve os três parâmetros do fluxo verbal — o débito, a quantidade (intensidade) e a qualidade (timbre) —, todos governados pelo captador auditivo. Apoia-se na prova do «delayed feed-back» de Lee e Black (1949) e na de Lombard para mostrar como uma perturbação da auto-escuta engendra gaguez e perturbações vocais. Por fim, afirma a existência de um ouvido diretor dominante, fundamento da lateralidade e condição mesma da linguagem articulada.
Contexto histórico — Este artigo condensa as intuições fundadoras de Tomatis sobre o ciclo audio-vocal, alguns anos após a formulação por Husson do «efeito Tomatis» na Académie de médecine (1957). Prefigura a audio-psico-fonologia e o uso terapêutico do ouvido eletrónico que ele desenvolverá em seguida.
A Linguagem (1970)
Autor: Dr. Alfred Tomatis Data: 1970 Publicação: Société de Médecine de Paris, Revue d’Enseignement Post-universitaire, n.º 2 Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Tomatis propõe fazer da linguagem um objeto de exame clínico de pleno direito, inserido no balanço médico. Concebe-a como uma produção mensurável do corpo, regida por três parâmetros — intensidade, qualidade, ritmo — colocados sob o controlo do ouvido, captador de um ciclo cibernético audio-vocal. Defende a preeminência do ouvido direito, via de retorno mais curta, e relaciona a lateralização com a génese intrauterina do desejo de comunicar, e depois com a relação simbólica com o pai. O autor detalha em seguida um exame clínico preciso (voz, assimetria facial, sincinesias, designação do ouvido, auto-informação), uma patologia graduada (ausência de linguagem, disartrias, gaguezes, dislexias) e um tratamento fundado na reeducação auditiva por filtragem eletrónica e báscula de escuta.
Contexto histórico — Texto de maturidade, sistematiza a audio-psico-fonologia num protocolo clínico completo e retoma as teses do ouvido diretor e da escuta intrauterina. Testemunha a vontade de Tomatis de inscrever o seu método na prática médica corrente.
A Música e a criança (1972)
Autor: Dr. Alfred Tomatis Data: 11-14 de maio de 1972 Publicação: 1.º Simpósio regional da música, Pierrelatte Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Comunicação lida na ausência do autor por Marie-Louise Aucher. Tomatis apresenta aí a música como o modo maior da educação corporal, próprio para preparar o corpo a receber a linguagem: ela integra os ritmos, logo o tempo, e treina a verticalidade, logo o espaço. Distingue os sons «de carga» e «de descarga», descreve a entrada do som pelo ouvido e pela pele, e detalha o papel do nervo pneumogástrico e do nervo auditivo, pilares da lateralidade e da recarga cortical. Privilegiando os agudos, ricos em energia, consagra Mozart como músico dinamizante. Por fim, relaciona a escuta intrauterina e o canto com a génese da linguagem e defende a sua reintegração na pedagogia.
Contexto histórico — Dado no limiar dos anos 1970, este texto alarga a audio-psico-fonologia para uma estética e uma pedagogia do som, onde a música de Mozart e a escuta filtrada da voz materna se tornam instrumentos de desenvolvimento. Ilustra a abertura da obra de Tomatis, filho de cantor, para a voz cantada e a educação da criança.
Utilização do ouvido eletrónico para as aulas de inglês
Autor: Dr. Alfred Tomatis (aplicação pedagógica) Data: experimentação 1973-1977 Fac-símile: Ler o documento original (PDF)
Este relatório pedagógico relata uma experimentação levada a cabo junto de alunos francófonos do Athénée royal de Comines. Partindo da constatação de que a compreensão do inglês falado coloca aos francófonos dificuldades específicas — velocidade percebida do débito, fonemas finais inaudíveis, palavras correntes não reconhecidas —, os autores atribuem o problema não à inteligência mas à audição. Invocam a lei de Tomatis: «a laringe só emite os harmónicos que o ouvido pode ouvir». Um grupo experimental é condicionado pelo ouvido eletrónico (música filtrada, inglês filtrado, sibilantes inglesas), enquanto um grupo de controlo segue um método áudio-oral. Possuindo cada língua a sua banda de seletividade própria, o dispositivo educa o ouvido médio pela báscula eletrónica e a lateralização direita. Os resultados mostram uma melhoria objetiva dos limiares nas frequências agudas e uma voz mais clara no grupo treinado.
Contexto histórico — Este documento ilustra a difusão concreta do ouvido eletrónico no ensino escolar das línguas durante os anos 1970. Põe em prática as «leis Tomatis» e a noção de ouvido étnico, prolongando em meio pedagógico os princípios audio-vocais enunciados desde 1960.